Capítulo 3 — Suplementação durante o uso de GLP-1: o que realmente funciona segundo a ciência
O uso de medicamentos como Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro®, Zepbound® e Saxenda® muda profundamente o metabolismo e os hábitos alimentares. A diminuição do apetite favorece o emagrecimento, mas também aumenta o risco de perda de massa muscular, ingestão insuficiente de proteínas, deficiência de micronutrientes, desidratação e alterações na saúde intestinal. Neste capítulo, você entenderá quais suplementos possuem evidências científicas para auxiliar durante o tratamento, quando fazem sentido e quais benefícios realmente podem oferecer.
Importante: suplementos não substituem uma alimentação equilibrada nem potencializam diretamente a ação do GLP-1. O objetivo é corrigir deficiências, preservar a saúde e otimizar os resultados do tratamento.
Antes de falar sobre suplementos: qual é o maior erro durante o uso de GLP-1?
Muitas pessoas acreditam que, como estão comendo menos, automaticamente estão se alimentando melhor.
Na prática, isso raramente acontece.
O que normalmente ocorre é uma redução global na ingestão de alimentos.
Ou seja, a pessoa passa a consumir menos:
-
proteínas;
-
fibras;
-
vitaminas;
-
minerais;
-
água;
-
eletrólitos.
Isso explica por que alguns pacientes apresentam excelente perda de gordura, mas também desenvolvem fadiga, perda de massa muscular, queda de cabelo, constipação e piora da disposição.
A suplementação deve ser utilizada justamente para evitar que isso aconteça.
1. Proteínas: o suplemento mais importante durante o tratamento
Se fosse necessário escolher apenas um suplemento para a maioria dos pacientes em uso de GLP-1, a proteína provavelmente seria a primeira escolha.
Por que a proteína é tão importante?
Durante o emagrecimento ocorre um déficit energético.
Sem proteína suficiente, o organismo passa a degradar tecido muscular para fornecer aminoácidos necessários às suas funções.
Isso favorece:
-
perda de massa magra;
-
redução da força;
-
diminuição do metabolismo basal;
-
pior recuperação muscular;
-
maior risco de recuperar o peso posteriormente.
Além disso, o próprio GLP-1 reduz o apetite, tornando mais difícil atingir as necessidades proteicas apenas com alimentos.
Quanto consumir?
As recomendações variam conforme idade, nível de atividade física e composição corporal.
De forma geral:
-
adultos saudáveis em emagrecimento: 1,2–1,6 g/kg/dia;
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praticantes de musculação: 1,6–2,2 g/kg/dia;
-
idosos ou pessoas com risco de sarcopenia: frequentemente 1,2–1,5 g/kg/dia, podendo haver ajustes individualizados.
Qual proteína escolher?
Todas podem ajudar quando atingem boa quantidade de proteína e aminoácidos essenciais.
Entre as principais opções:
Whey Protein
É a proteína mais estudada.
Vantagens:
-
alta digestibilidade;
-
rica em leucina;
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rápida absorção;
-
excelente perfil de aminoácidos.
Whey Isolado
Pode ser interessante para pessoas com intolerância à lactose ou que desejam menor ingestão de carboidratos e gorduras.
Proteína da carne (Beef Protein)
Alternativa para indivíduos que não utilizam derivados do leite.
Quando possui bom perfil de aminoácidos, também pode contribuir para manutenção da massa muscular.
Caseína
Sua digestão mais lenta pode favorecer maior saciedade em algumas pessoas.
2. Creatina: muito além do ganho de força
A creatina continua sendo um dos suplementos mais importantes durante o uso de GLP-1.
Embora muitas pessoas associem creatina apenas ao aumento de massa muscular, seus benefícios vão muito além.
Como ela pode ajudar?
Durante o emagrecimento existe tendência à perda de massa muscular.
A creatina, associada ao treinamento de força, ajuda a:
-
preservar força;
-
melhorar desempenho nos treinos;
-
favorecer manutenção da massa magra;
-
aumentar capacidade funcional.
Há também evidências promissoras relacionadas à função cognitiva, especialmente em situações de privação de sono e alta demanda mental, embora esses benefícios ainda sejam objeto de pesquisa.
Dose
A estratégia mais utilizada é:
3–5 g por dia, continuamente.
A fase de saturação é opcional.
3. Fibras: um dos suplementos mais negligenciados
Poucos nutrientes sofrem queda tão importante durante o tratamento quanto as fibras.
Como o paciente come menos, automaticamente também reduz o consumo de frutas, verduras, legumes e cereais integrais.
Isso favorece:
-
constipação;
-
alterações da microbiota;
-
pior controle glicêmico;
-
menor produção de ácidos graxos de cadeia curta.
Psyllium
Uma das fibras mais estudadas.
Benefícios:
-
melhora o trânsito intestinal;
-
aumenta saciedade;
-
auxilia controle glicêmico;
-
melhora consistência das fezes.
PHGG (Goma Guar Parcialmente Hidrolisada)
Excelente tolerabilidade.
Pode favorecer:
-
saúde intestinal;
-
microbiota;
-
redução da constipação.
Inulina e FOS
Funcionam principalmente como prebióticos.
Estimula o crescimento de bactérias benéficas.
Devem ser introduzidos gradualmente para minimizar gases e desconforto abdominal.
4. Probióticos: fazem sentido?
Essa é uma das áreas mais promissoras da nutrição.
Entretanto, também é uma das mais mal interpretadas.
O que a ciência mostra?
Os probióticos podem beneficiar algumas pessoas.
Entretanto:
-
os efeitos dependem da cepa utilizada;
-
não existe um "probiótico universal";
-
resultados variam entre indivíduos.
Eles podem auxiliar principalmente quando existe:
-
constipação;
-
diarreia;
-
uso prévio de antibióticos;
-
alterações da microbiota.
Ainda não há evidências suficientes para afirmar que probióticos aumentam diretamente o emagrecimento durante o uso de GLP-1.
5. Eletrólitos: hidratação inteligente
Durante o uso de GLP-1 muitas pessoas:
-
comem menos;
-
bebem menos água;
-
apresentam vômitos;
-
apresentam diarreia;
-
treinam regularmente.
Tudo isso aumenta o risco de desidratação.
Os principais eletrólitos
-
sódio;
-
potássio;
-
magnésio;
-
cloreto.
A reposição pode ser particularmente útil em pessoas com perda importante de líquidos ou prática intensa de exercícios. Para quem não apresenta essas condições, água e uma alimentação equilibrada costumam ser suficientes.
6. Ômega-3
O ômega-3 não aumenta a perda de peso.
Esse é um mito.
Por outro lado, ele apresenta benefícios bem estabelecidos para:
-
saúde cardiovascular;
-
redução de triglicerídeos (especialmente em doses terapêuticas sob orientação médica);
-
modulação de processos inflamatórios.
Pode ser especialmente interessante para indivíduos que consomem pouco peixe gorduroso.
7. Coenzima Q10
A CoQ10 participa diretamente da produção de energia nas mitocôndrias.
Embora ainda não existam estudos robustos mostrando benefícios específicos durante o uso de GLP-1, alguns pacientes podem apresentar ingestão reduzida de alimentos que fornecem CoQ10 e, em situações específicas, como uso concomitante de estatinas, a suplementação pode ser considerada.
Seu uso deve ser individualizado.
8. Vitamina D
A deficiência de vitamina D é comum na população em geral.
Durante o emagrecimento ela não necessariamente aumenta, mas continua sendo importante para:
-
saúde óssea;
-
função muscular;
-
sistema imunológico.
A suplementação deve ser baseada em exames laboratoriais, evitando tanto a deficiência quanto o excesso.
9. Vitamina B12
Pacientes que utilizam metformina junto com agonistas de GLP-1 merecem atenção especial.
A metformina pode reduzir a absorção intestinal da vitamina B12 ao longo do tempo.
Baixos níveis podem favorecer:
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fadiga;
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neuropatia;
-
anemia;
-
alterações cognitivas.
O monitoramento periódico é recomendado.
10. Magnésio
O magnésio participa de centenas de reações enzimáticas.
Sua suplementação pode ser útil quando há deficiência confirmada ou ingestão insuficiente.
Entre suas funções estão:
-
contração muscular;
-
transmissão nervosa;
-
metabolismo energético;
-
saúde óssea.
Não há evidências de que suplementar magnésio acima das necessidades traga benefícios específicos para todos os usuários de GLP-1.
11. Colágeno
O colágeno é frequentemente divulgado como solução para perda muscular durante o emagrecimento.
Isso não é correto.
Embora possa ter aplicações específicas para pele, cartilagem ou tendões, o colágeno não substitui proteínas completas, pois apresenta baixa quantidade de aminoácidos essenciais, especialmente leucina.
Se o objetivo é preservar massa muscular, proteínas completas continuam sendo a prioridade.
12. Multivitamínicos
Fazem sentido?
Depende.
Para pessoas que apresentam ingestão alimentar muito reduzida, um multivitamínico pode ajudar a complementar micronutrientes. No entanto, ele não substitui uma alimentação variada nem deve ser usado indiscriminadamente.
Sempre que possível, a decisão deve ser baseada na avaliação clínica e em exames laboratoriais.
Suplementos com melhor nível de evidência durante o uso de GLP-1
Os suplementos com maior respaldo científico para complementar o tratamento são:
| Suplemento | Principal objetivo |
|---|---|
| Proteína (Whey, Whey Isolado, Beef Protein, Caseína) | Preservação da massa muscular |
| Creatina | Manutenção de força e massa magra |
| Fibras (Psyllium, PHGG) | Constipação, saúde intestinal e saciedade |
| Prebióticos | Saúde da microbiota |
| Eletrólitos | Hidratação em situações específicas |
| Ômega-3 | Saúde cardiovascular |
| Vitamina D | Correção de deficiência |
| Vitamina B12 | Correção de deficiência, especialmente em usuários de metformina |
Suplementos que ainda possuem evidências limitadas
Alguns produtos são frequentemente divulgados para usuários de GLP-1, mas ainda carecem de estudos específicos:
-
Coenzima Q10 (benefícios específicos no contexto do GLP-1 ainda não demonstrados de forma consistente);
-
Probióticos para potencializar o emagrecimento;
-
Aminoácidos isolados para preservação muscular em indivíduos que já atingem a recomendação diária de proteínas;
-
Compostos "termogênicos" para acelerar o efeito do medicamento.
Isso não significa que sejam inúteis, apenas que as evidências atuais não permitem afirmar que tragam benefícios consistentes para todos os pacientes.
Mais importante do que suplementar é evitar deficiências
O maior objetivo da suplementação durante o uso de agonistas de GLP-1 não é acelerar o emagrecimento.
É permitir que o paciente emagreça com saúde.
Preservar massa muscular, manter uma boa hidratação, garantir ingestão adequada de proteínas, fibras e micronutrientes reduz o risco de complicações e melhora a qualidade dos resultados obtidos com o tratamento.
O que veremos no próximo capítulo?
Agora que conhecemos os suplementos mais importantes, surge outra questão:
Como deve ser a alimentação ideal durante o uso de GLP-1?
No próximo capítulo, vamos construir um guia completo sobre nutrição durante o tratamento, abordando distribuição de proteínas ao longo do dia, ingestão de carboidratos e gorduras, estratégias para reduzir náuseas, hidratação, organização das refeições e exemplos práticos de alimentação para preservar a massa muscular e otimizar o emagrecimento.
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